Eduardo Gomes da Silva Filho
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de Warkaxi, sua esposa e um filho, Kwida - pai de
Comprido, Tarakña e tantos outros. A lista é longa,
os mortos têm nomes, mas às vezes são identifica-
dos pelo laço de parentesco: “a filha de Sabe que
mora no Mrebsna Mudî, dois tios de Mário Paru-
wé, o pai de Wome, uma filha de Antônio” (FREIRE,
2014, p.1).
Ainda de acordo com Bessa Freire:
Os alunos da aldeia Yawará desenharam casas e
escreveram ao lado frases como: Apapa takweme
apapeme batkwapa kamña nohmepa [o meu pai foi
atirado com espingarda por civilizado e morreu] –
escreveu Pikida, ao lado do desenho que ilustra o
fato. Taboka ikame Tikiriya yitohpa. Apiyamyake,
apiyemiyekî? [Taboca chegou, Tikiria sumiu, por
que? Por que?] (Ibid. p. 1).
As representações coletivas do grupo indíge-
na Waimiri-Atroari tomam um caráter importante,
que rompe com o paradigma de tutela imposto pela
FUNAI e PWA. Ao longo da sua historiografia recen-
te, estas representações culturais constituem-se a
partir da representação do grupo e caracterizem-se
como práticas que denotavam um processo de or-
ganização e resistência, em curso, por parte dessa
comunidade indígena. A valorização da memória
Waimiri-Atroari, no âmbito da alfabetização em lín-
gua materna, ensejou o reforço da cultura e da pró-
pria identificação desse povo. Mas nem sempre foi
assim.
Segundo Baines, o aprendizado do portu-
guês havia impactado negativamente a sociedade
Waimiri-Atroari:
Os jovens Waimiri-Atroari que se empenhavam
em aprender português passaram a ridicularizar
a sua própria língua, seguindo o exemplo de mui-
tos funcionários da FUNAI que se referiam à língua
indígena como “gíria”, numa desvalorização cons-
tante. A linguagem de contato expressava, em si, a




