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Protagonismo e resistência dos Waimiri-Atroari na Amazônia
por meio do estímulo da memória indígena. Vale des-
tacar que o projeto educacional proposto, centrado
na articulação entre saberes e ação política, estava
ancorado na obra de Paulo Freire.
Para Paulo Freire (1985), o processo de al-
fabetização caracteriza-se basicamente como um
projeto político, garantindo o direito do educando de
afirmar sua própria voz. Sendo assim, o autor não
criou categorias permanentes, elas são sensíveis à
problemática de categorias que utilizam suas expe-
riências de vida.
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Assim, auferimos que essas experiências
narradas pelos missionários partiram do campo da
organização indígena, que ajudou a manter preser-
vada a sua memória, externada como prática cultu-
ral de resistência. A valorização da memória coletiva
dos índios constitui-se como uma experiência ímpar
destes missionários durante o período das suas prá-
ticas educativas junto a este povo. No entanto, de
acordo com Maurice Halbwachs:
Não se trata mais de revivê-los em sua realida-
de, porém de recolocá-los dentro dos quadros nos
quais a história dispõe os acontecimentos, quadros
que permanecem exteriores aos grupos em si mes-
mos, e defini-los, confrontando-os uns aos outros
(HALBWACHS, 2006, p. 86).
A esse respeito, o pesquisador nos alerta que
para o historiador é preciso fixar essas memórias
por escrito, pois, na medida em que não forem re-
gistradas, se corre o risco de perdê-las. No caso da
experiência dos missionários junto ao povo Waimiri-
119 Dessa forma, o modo como o trabalho de alfabetização foi desenvol-
vimento pelo casal Schwade junto aos índios, pode ser compreendido
a partir dos relatos das experiências que foram descritas em mais
um documento importante, como por exemplo: o Relatório produzido
por Egydio e Doroti Schwade acerca da “Experiência de alfabetização
entre os Waimiri-Atroari”, em 1986.




