Eduardo Gomes da Silva Filho
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bito do grupo e – mediante um trabalho de tradução
– repercutissem no espaço público, permitindo uma
politização da questão Waimiri-Atroari.
Assim, os relatos dos próprios índios sobre as
práticas de genocídio a que foram submetidos, que
surgiram através de desenhos, letras, depoimentos
e descrições, realizadas nas aulas de alfabetização,
podiam significar num reforço dos vínculos étnicos,
a medida que, de modo dramático, reafirmava o per-
tencimento ao grupo em meio às agressões por parte
do Estado brasileiro. Contudo, o material produzido
também permitia apresentar a sociedade nacional e
mesmo no âmbito de fóruns internacionais, os povos
Waimiri enquanto vítimas de uma guerra de exter-
mínio movida pelo Estado, em beneficio de grandes
empresas.
Um dos sobreviventes, o índio Panaxi, habi-
tante de uma aldeia do rio Alalaú, disse, que durante
a construção da BR 174 seu pai, mãe, irmãos, paren-
tes e amigos foram atacados por aviões, helicópteros,
bombas, metralhadoras, fios elétricos e estranhas
doenças, comunidades inteiras desapareceram, de-
pois que helicópteros com soldados sobrevoaram ou
pousaram em suas aldeias. Nas palavras de Panaxi:
Antigamente não tinha doença. Kinã estava
com saúde. Olha civilizado aí! Olha civilizado
ali! La! Acolá! Civilizado escondido atrás do
toco-de-pau! Civilizado matou com bomba.
Civilizado matou Sere.
Civilizado matou Podanî.
Civilizado matou Mani.
Civilizado matou Akamamî.
Civilizado matou Priwixi (RELATÓRIO DO
COMITÊ DA VERDADE DO AMAZONAS,
2012, p. 9).
Nesse sentido, a experiência etnográfica vivi-
da por Egydio Schwade, na aldeia Yawará, foi fun-
damental para que fatos como esse viessem à tona,




