Eduardo Gomes da Silva Filho
203
O CASO BALBINA:
DESLOCAMENTO COMPULSÓRIO,
DESTERRITORIALIZAÇÃO,
RETERRITORIALIZAÇÃO E PRÁTICAS
DE RESISTÊNCIAS
Os infelizes que lhes deixaram a tuberculose, sa-
rampo, pneumonia,
Gripe, desidratação, anemia, sarna, verminose.
E o medo, o medo trágico de não mais existir.
Vão inundar povos, suas terras, povos desterrados
povos.
Água virada, fluída em estagnada Medusa.
Balbineiros, fazedores de dilúvios, nem mais mani-
queístas, só o mal.
A cidade e seus comércios
E o bicho, a castanha, o ar?
Chora de saudade e morre de incompreensão à bei-
ra do rio, negro.
Dilacerando a terra uma serpente implacável vai,
tomba árvores,
Máquina de rasgar atravessa estradeiros, os labi-
rintos da vida,
Com suas epidemias, tratores, aviões, bombas, ri-
fles, dinamites, granadas, metralhadoras.
PROGRESSO: Proliferação, promiscuidade, produ-
ção e os infelizes rodarão com os seus carros, nego-
ciando, negociando, negociando.
Tem cassiterita na terra dos índios, tem manganês,
tem estanho, terá ouro na terra dos índios? Teve
alegria, terra de índios.
Mas não, vão combater e residir, até quando se-
nhores leitores permanecereis vós cegos e omissos,
inertes e inaptos em cárceres enganas?
Senhores leitores, leitores senhores, gostais de ver
corvos voando sobre vossas cabeças? (Letícia San-
tos, Itacoatiara, fevereiro de 1983).




