110
Protagonismo e resistência dos Waimiri-Atroari na Amazônia
provocados pela incúria e inabilidade de terceiros,
a serviço das frentes de trabalho da estrada BR-
174. [...] A frente de Atração em suas investigações
e pesquisas, chegou a tomar conhecimento dos
possíveis autores do massacre os quais sempre
manifestaram bons sentimentos e muita cordiali-
dade com o pessoal da Frente de Atração, embora
demonstrassem certo ressentimento com trabalha-
dores da estrada [...] (Ibid., p. 14-15).
Ao analisarmos o discurso do sertanista ao
longo do documento, podemos inferir que às relações
entre os índios e os trabalhadores da frente de atra-
ção oscilaram bastante. Percebemos que isso ocor-
reu face às ameaças representadas pela construção
da estrada, além da presença dos próprios emprega-
dos, que no caso dos trabalhadores da estrada, eram
vistos pelos índios como uma ameaça ao seu terri-
tório e ao seu modo de vida. Contudo, essa atitude
dos índios não se tratava de uma resposta dada por
indivíduos, mas de guerreiros seguindo deliberações
coletivas.
De acordo com o documento, os trabalhado-
res da frente de atração da FUNAI presenteavam os
índios com frequência e isso gerava uma sensação
de amabilidade e segurança entre ambos, porém, ao
sentirem-se ameaçados com a possibilidade da saída
do seu território, os guerreiros Waimiri-Atroari agi-
ram com firmeza em sua defesa.
Portanto, este episódio não pode ser visto
como um ato de violência gratuita e sim de violên-
cia legítima, ancorada na autodefesa de comunida-
des ameaçadas por doenças, destruição de seu am-
biente, invasão de suas terras, desrespeito as suas
instituições e pela expansão dos brancos sobre seu
território.
O protagonismo indígena expresso na capa-
cidade de dar continuidade a um processo multis-




