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Protagonismo e resistência dos Waimiri-Atroari na Amazônia
Ainda segundo o jornal, [...] “depois do ocor-
rido, um avião norte americano sobrevoou o local da
chacina, mas não obteve nenhum resultado, haven-
do à necessidade da organização de outra expedição
para recolher os pertencer e os corpos das vítimas”
(Ibid., p.20).
Em ambos os episódios, a disposição para a
guerra é evidenciada a partir da organização social
indígena,
31
na medida em que eles estavam dispos-
tos a defender o seu território, que para o índio é sa-
grado, pois é dele que tiram todo o seu sustento, com
a caça, pesca, criação de animais, plantação e cole-
ta. Portanto, esta estratégia de defesa não seria um
fato isolado na história de luta e resistência do povo
Waimiri-Atroari, pois mesmo após o fracasso da mis-
são Calleri muitas outras lutas contra os brancos
ainda seriam travadas em defesa do seu território.
Em virtude do espírito guerreiro deste
povo e temendo novos “ataques”, o Engenheiro do
Departamento Nacional de Estradas de Rodagem –
DNER, Altamiro Veríssimo, declarou na edição do
Jornal A Crítica, de 03 de dezembro de 1968, que:
“não cogita de organizar outra expedição para pa-
cificar os Atroaris, nem agora e nem a longo prazo,
porque eles são realmente selvagens e permanecem
com a borduna
32
nas mãos” (A CRÍTICA, 1968).
31 A esse respeito, o Antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (2002), em
uma discussão análoga acerca dos tupinambás, questiona se eles
eram tão inconstantes em sua conversão e no abandono dos maus
costumes frente aos jesuítas, invertendo a perspectiva, questionan-
do por que são tão constantes em sua inconstância? Em sua argu-
mentação, o autor aborda o valor da alteridade indígena, ou seja, na
maneira como esse indígena vê o “eu” e outro. Corroborando com
este entendimento, Marcel Mauss (2003) ajudou-nos a compreender
o conceito feito pelo outro, ou seja, pelo grupo que tentava adentrar o
território indígena, na medida em que a visão holística de mundo dos
indígenas é intrínseca a sua cosmologia.
32 O termo borduna, refere-se a uma arma indígena, um porrete feito de
madeira dura, usadas para dar bordoadas.




