Eduardo Gomes da Silva Filho
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A versão do mateiro foi questionada por al-
guns jornais da época, no entanto, a grande maioria
dos discursos que foram produzidos pela própria mí-
dia, buscava de certa forma, destacar a “ferocidade
do grupo indígena”, tendo em vista que um episódio
similar já havia ocorrido no ano de 1944 – a esse
respeito, à edição do dia 25 de outubro, do mesmo
ano, do Jornal Correio da Manhã informou a seguin-
te notícia: “
Mortos pelos índios os membros de uma
expedição
”, o motivo seria supostamente por causa
de uma máquina fotográfica, segue abaixo um tre-
cho da matéria:
Foram massacrados pelos índios na cachoeira “cri-
minosa” no rio Alalaú, os membros de uma expedi-
ção americana, tendo-se salvo apenas uma pessoa
das seis de que se compunha a malfadada expe-
dição. [...] os expedicionários, avistando os índios
na margem, fizeram-lhes acenos, no que foram cor-
respondidos. Um oficial norte-americano, chama-
do Williams não obstante as ponderações que lhe
foram feitas pelos trabalhadores nacionais, insistiu
no desejo de entrar em contato com os silvícolas,
dirigindo a embarcação para a praia e saltando
sozinho ficando na embarcação seu colega Baitz e
o caboclo. [...] A tragédia ocorreu quando o oficial
americano, focalizando a sua máquina pretendeu
tirar instantâneos do grupo. Os selvagens, alarma-
dos com o aspecto da máquina, começaram a bra-
dar “marupa.”
30
[...]. Prevendo um ataque iminente,
os naturais observaram ao americano se retirar, o
qual, desobedecendo, continuou a bater chapas.
Duas flechas partiram do grupo, indo cravar-se no
peito de Williams. Fugindo a sanha dos sanguiná-
rios índios, toda expedição atirou-se ao rio, tendo
parecido, afogado Baitz e as demais vítimas das fle-
chas, tendo escapado apenas o canoeiro Raimundo
Felipe, por ter se escondido atrás de umas pedras
(CORREIO DA MANHÃ, 1944, p. 20).
30 O termo “marupa”, na cosmologia Waimiri-Atroari, significa: mau,
não presta.




