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Protagonismo e resistência dos Waimiri-Atroari na Amazônia
Em sua última mensagem antes do massa-
cre da expedição, o Padre Calleri citou o abandono
do mateiro Álvaro Paulo e demonstrou preocupação
com o comportamento apresentado pelos índios:
[...] Ontem à noite, fomos obrigados a estudar um
meio para comprar, com objetos, todas as armas
do grupo que nos acompanha, para podermos
viajar mais sossegados. Com extrema facilidade,
passam da calma à violência. Nós continuamos e
continuaremos com nosso propósito de disciplina
e justa recompensa. Hoje de madrugada, um de
nossos melhores homens abandonou a expedição.
Tudo indica que se faltarem orações às flechas não
tardarão a voar (SABATINI, 1998, p. 23).
No dia 27 de outubro de 1968, quatro dias
antes desta mensagem, o mateiro já havia chamado
a atenção do Padre para o comportamento dos índios
“aqueles mesmo índios com quem haviam feito con-
tato já tinham participado de massacres de brancos”
(SABATINI, 1998, p. 27).
Ao se despedir do Padre na madrugada do
dia 31 de outubro de 1968, o mateiro decidiu fazer
uma canoa para voltar à Manaus. No entanto, no
dia 1º de novembro de 1968, ele muito preocupa-
do com os demais membros da expedição, resolveu
voltar à maloca do líder dos Waimiri-Atroari, o tu-
xaua Maroaga,
29
mas antes disso, deparou-se com
dois cadáveres da expedição. Dias depois, de volta
à cidade de Manaus, em depoimento a sua esposa,
ele descreveu “Estavam todos mortos, todos mortos”,
ele repetia para a mulher, “uns caídos aqui, outros
acolá”. (Ibid., p. 29).
29 Apesar do uso do termo “cacique” pelos colonizadores europeus em
toda a América, cada grupo indígena de diferentes regiões do con-
tinente possuía uma denominação e concepção próprias para suas
lideranças.
Mburovixá
é a denominação que os povos guaranis deram
para seus líderes. Para os tupis, as denominações eram
morubixaba
,
murumuxaua, muruxaua
,
tubixaba
e
tuxaua
.




